Caminho Português de Santiago

O (meu) Caminho de Santiago

Passou um mês desde que fiz o meu Caminho…

Percorrer o Caminho de Santiago era algo que sempre tinha pensado fazer, mas sem aquela devoção, aquela fé que marca tantos peregrinos. Eu queria ir por mim, queria que esta fosse uma viagem (tipo daquelas…) de introspeção, autoconhecimento, que me permitisse recuperar o foco. Bem sei que o poderia fazer descansadinho num hotel, num spa, mas queria experimentar a magia do Caminho de que tanta gente falava e eu não compreendia. Agora percebo, assim como vocês vão entender no final deste texto…

Partimos a 04 de agosto e terminamos no dia 07 – fui com um amigo que de um dia para o outro alinhou nesta aventura sem pensar duas vezes. Aproveitamos o facto de termos uns dias de férias para os quais não tínhamos quaisquer planos e decidimos preparar tudo para percorrer o Caminho.

O que levei?

No que aos materiais diz respeito, aí sim, obrigou-me a uma maior logística: comprei um saco cama, uma mochila da Harschel (não, não me pagaram para escrever isto), meias de montanha, gel para as dores musculares, vitaminas para juntar à água (se a hidratação é importante num dia normal, escusado será dizer que numa aventura destas é fundamental), carregadores de telemóvel, powerbank, roupa (2 a 3 calções/calças, t-shirts, 2 camisolas mais quentes….)produtos de higiene e “papel higiénico”. O resto já tinha e confesso que não fui muito artilhado, até porque quantas mais coisas colocas na mochila, mais peso para as costas. Tentei simplificar e resultou bem.

 

Planeamento

Mala – É muito simples de fazer, basta pensarem bem no que vão precisar e alinhar esse pensamento com o peso que vão levar às costas, quanto mais coisas essenciais levarmos, mais fácil será percorrer os kms do caminho.

Caminho a fazer – Para quem parte do Porto, tem duas possibilidades: o Caminho da Costa, sempre junto ao mar e o Caminho Central. Eu optei por fazer o Caminho Central, a partir de Valença do Minho. Online, encontram vários mapas, prontos a serem descarregados para o telemóvel, de qualquer forma as setas amarelas estão durante o caminho todo.

Never!

 

Credencial

A credencial do Peregrino, é um espécie de passaporte que se pode obter facilmente (na net indica os locais). Para quem vai sair do Porto, pode ir à Sé Catedral, onde levantei a minha. Depois tem de fazer um mínimo de dois carimbos por cada “localidade” que passam, há kms mínimos a cumprir para se conseguir obter a Compostela na Oficina do Peregrino em Santiago.

Como foi o caminho?

Fizemos um total de 224km, pois partimos de Valença do Minho, para onde viajamos de comboio, desde o Porto. Neste primeiro dia estávamos completamente inebriados pelo entusiasmo, de tal forma que fizemos duas etapas seguidas, visto não termos encontrado local para pernoitar em Porrino. Paramos em Redondela, onde também não havia lugar disponível nos albergues, o que nos obrigou a reservar um hotel acessível via booking, perto de Vigo. No segundo dia, adivinhem quantas etapas fizemos? Exatamente: mais duas! Redondela – Pontevedra, e depois de Redondela – Caldas de Reis. No terceiro dia percorremos a etapa de Caldas de Reis até Padrón e no quarto dia chegamos a Santiago.

Todo o Caminho decorreu normalmente, mas confesso que esta ansiedade de percorrer mais quilómetros e de andar, andar, andar levou-nos precisamente a que quando chegávamos aos albergues já estavam cheios, o que não nos deu outra alternativa a não ser dormir em pensões e hotéis reservadas online naquele momento.

Marcos

Nos primeiros dias chegamos a caminhar cerca de 9 horas o que é, mesmo para mim que tenho uma boa preparação física, bastante cansativo. Mas tudo compensa pelas sensações que o Caminho te desperta. Conheci tantas pessoas, de diversos cantos do mundo, cada uma com as suas motivações, com as suas expetativas, mas todas elas com uma coisa em comum: um brilhozinho nos olhos, uma esperança em chegar ao fim desta aventura, desta descoberta e sentirem-se mais completos. E mesmo quando tudo está em silêncio, e vais mais recolhido, há sempre uma força, uma sensação de que não estás sozinho, de que és capaz, de que tudo vai correr bem.

Não se preocupem, ninguém se perde pelo caminho, há muita sinalização (sempre a amarelo), até chegarem ao destino.

Resumo das nossas etapas

Primeiro dia: Viagem de comboio até Valença, saímos do Porto no comboio das 8h30, no chamado Comboio Celta. A primeira etapa começou assim em Valença do Minho, num instante atravessamos até Tui e  seguimos até O Porrino, aí não conseguimos  dormida e seguimos mais uma etapa (doidos), até Redondela, onde foi impossível novamente arranjar dormida e fomos (obrigados) e após marcação no Booking a ir dormir Vigo,  para onde viajamos de Taxi.

Segundo dia: Voltamos a fazer duas etapas, devido à falta de dormida no final da primeira. Fizemos Redondela » Pontevedra, e depois de Redondela até Caldas de Reis, onde pernoitamos num Hotel.

Mais caminho…

Terceiro dia: Uma etapa, de Caldas de Reis até Pádron. Marcação do Hotel no Booking.

Quarto dia: última etapa, até Santiago. Marcação de dormida em Santiago de Compostela, através do AirnB.

O que comi?

Levei muitas barras de cereais e vitaminas para colocar na água, que ia comprando ao longo do Caminho. Todos os dias, bebia um Powerade, que facilmente comprava pelo caminho. Alimentava-me também com fruta e uma lata de atum, que colocava num pão para fazer uma sanduiche. Isto durante o dia, pois à noite, jantávamos num restaurante, com comida um pouco mais a sério, para auxiliar na recuperação.

Importante: Vão encontrar imensas amoras pelo caminho, que podem apanhar, sim também é possível ser um agricultor nómada pelo caminho 🙂 (lembrem-se de levar uma pequena caixa de plástico para lavarem a fruta) e encontram ainda maçãs pelo caminho, há muita gente a colocar caixas na beira do caminho.

 

Chegámos!

Chegar a Santiago de Compostela é um pretexto, um objetivo que esconde algo bem maior dentro de cada pessoa que se propõe a fazer este percurso. Aprendemos a estarmos bem connosco próprios e a dar valor a coisas que num dia comum nos passariam completamente ao lado. É uma verdadeira chamada de realidade, uma espécie de renascimento gratificante, uma segunda oportunidade para sermos mais e melhores.

Catedral de Padrón

Quase parece que o coração para quando te deparas com a Catedral e te deitas no chão na pedra quente, numa explosão de emoções. Chegámos!

 

 

Quem me conhece, bem sabe como sou aventureiro e não tenho medo do desconhecido e de novas experiências. E há tantas outras coisas que gostaria de fazer: viagem de Transiberiano, a caminhada até Fátima, correr a incrível maratona de Nova Iorque e subir ao topo do Kilimanjaro. São tudo coisas que pretendo fazer se a oportunidade surgir. Por isso, se alguém desse lado estiver a preparar algo parecido, não o deixem de fazer!. 🙂

Amanhecer em Caldas de Reis

 

PS: Rapazes, vão solteiros!. 🙂

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